Brasil Colônia: homens, poder e moda

O luxo e a ostentação no vestir faziam parte da vida da população no Brasil de então, principalmente entre aqueles que sonhavam em integrar a “nobreza” local. A preocupação com os trajes era tão grande entre os homens como entre as mulheres. Como nas civilizações antigas, as roupas funcionavam como uma ferramenta para demonstrar a classe social em que cada um estava inserido.

Os guarda-roupas dos senhores elegantes da Colônia eram compostos por calções e gibões de cetim, linho e tecidos adamascados, roupetas de gourgorão, casacas de seda, camisas brancas, coletes de veludos, lã fina ou sedas, meias e ligas de seda, gravatas e roupas de baixo com rendas, lenços de seda e algodão da Índia, capas; sapatos e botas com fivelas de ouro e prata, botões de metais preciosos, chapéus de lã. Tudo isso, ainda contava com o acabamento de bordados, fitas, brocados, telas e até lantejoulas. As cores dos tecidos costumavam ser escuras e o preto era um dos tons preferidos. Por cima, uma capa ou capote de lã ou de outro tecido pesado, sem levar em conta o calor das terras coloniais. O uso das perucas não foi popular no Brasil, apenas os homens de leis, magistrados e alguns nobres europeus insistiam em exibi-las. A França era a maior irradiadora de modas no período. No século XIX, os ingleses passam a dominar o guarda-roupa masculino, influenciando inclusive os brasileiros.

Em Portugal, até o século XVIII, a influência francesa na moda era marcante, apesar das tentativas da Coroa de estimular o uso do traje típico lusitano e dar impulso à produção local de tecidos. D. João V, foi o rei português que mais imitou a corte francesa em seu luxo e ostentação, usando camisas de seda, coletes e casacos com brocados, bordados, fitas, rendas, perucas, ornamentos em ouro e prata, muitas joias e pedras preciosas. A Revolução Francesa modificou bastante os costumes e as modas na Europa, simplificando, em um primeiro momento, a indumentária. As modas pós-revolução chegaram com atraso em Portugal. Mesmo na França, os poderosos, aos poucos, voltaram a rebuscar o vestuário. A corte de Napoleão Bonaparte ficou conhecida pelo luxo e o próprio imperador não dispensava a pompa dos rituais ligados às cerimônias oficiais.

A indumentária também era parte importante da sociedade brasileira, por meio dela era possível identificar o papel de cada indivíduo na complexa cadeia de relações sociais. Portanto, o ato de sair à rua era precedido de um longo ritual para os homens e mulheres mais abastados: os tecidos nobres, as joias, os assessórios, as carruagens e os cavalos, além do número de escravos, todos estes itens eram minuciosamente escolhidos com o objetivo de mostrar aos demais todo o seu poder e riqueza. Outro símbolo de distinção era poder exibir o hábito de uma das Ordens Militares – de Cristo, Santiago ou Avis –, o que representava era uma honraria muito importante para os fidalgos das terras coloniais, mesmo porque representava uma quantia em dinheiro e uma série de vantagens fiscais. Como a maior parte da nossa aristocracia não possuía títulos de nobreza – já que estes eram raros, até a chegada da Família Real Portuguesa, em 1808, quando D. João VI começou a distribuí-los entre os membros da elite – estes hábitos eram muito cobiçados.

Em “Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes”, Júnia Ferreira Furtado descreve os preparativos do jovem João Fernandes, recém-nomeado desembargador na região, para circular pelas ruas do Tejuco e impressionar a elite local:

            “A primeira peça em que o ritual em que o vestir-se consistia era a ceroula, seguida de camisa branca de linho com babados, de calção ou calça e meias finas de seda. Por cima, usava-se uma casaca de droguete preta, vermelha ou azul, ou um fraque de baeta, veludo ou seda. Por fim, um casacão ou capote com mangas, quase enrolado ao corpo. Os adereços eram variados: pescocinho (gola branca usada pelos membros do clero); no bolso, lenço de seda com babados, outro azul para o tabaco; cabeleira, chapéu com presilha e pluma; a cruz da Ordem de Cristo pendurada ao pescoço; sapatos com fivela de prata e ouro, bengala de tartaruga com castão de ouro ou prata e anéis de pedras preciosas. Na algibeira, faca e espadachim com cabos de prata, além das pistolas”. [1]

Neste contexto, em que os poderosos – e aqueles que tentavam aparentar que o eram – precisavam demonstrar por meio de sinais exteriores todo o seu cabedal, não é de se estranhar que a maior preocupação com relação à aparência era direcionada para os locais públicos. As roupas luxuosas, joias e demais assessórios eram reservados para sair às ruas, ir às missas, às cerimônias, em resumo, para aparecer em público. Quando estavam em casa, os brasileiros eram considerados desleixados. Os homens dispensavam as meias ou as usavam caídas, a camisa branca ficava para fora dos calções, sem coletes, casacas ou capas. Alguns trajavam uma jaqueta fina ou gibão; outros, apenas ceroulas e camisa. As mulheres também simplificavam bastante a vestimenta caseira, usando apenas uma espécie de camisolão de tecido fino, conhecido como “timão” ou “lava-peixe”.

O vestuário era uma forma dos mais abastados mostrarem seu poder e marcarem a distância que os separava da população pobre, mestiça e escrava. A “arraia miúda” esforçava-se para imitar a elite, endividando-se para adquirir roupas de tecidos nobres, joias, escravos e outros luxos. Os “homens mecânicos” ou trabalhadores usavam basicamente calças e camisas de algodão e tecidos grosseiros, chapéus de palha ou lã, e andavam quase sempre descalços ou com rústicas botinas. Os mais pobres que residiam nas vilas e cidades tinham o costume de vestir peças de tecido nobre – casacas, coletes, capas – já usadas e gastas, muitas vezes obtidas como pagamento de seus serviços. Havia grande variedade no vestuário das classes mais baixas, de acordo com a ocupação e o local onde residiam. Tropeiros, pequenos comerciantes, negros forros, lavradores, vadios – cada um se trajava como suas parcas posses permitiam.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

Ilustração de Carlos Julião, século XVIII

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