“Não irão nos calar”: a força do voto feminino

Por Márcia Pinna Raspanti.

         Ontem, publiquei um texto aqui no blog sobre a luta das mulheres, ao longo da nossa História, por mais espaço no mundo político. Dei como exemplo recente a criação de um grupo apartidário (em nosso blog não fazemos propaganda partidária, que fique bem claro) no Facebook que se mobiliza contra um candidato que, na opinião de boa parte das eleitoras, representa o que há de mais retrógrado no cenário atual. “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” reuniu, em uma semana 2,3 milhões de mulheres e virou notícia nacional e internacional. D outro lado, pessoas favoráveis ao deputado criaram seus espaços e tentaram defender seus pontos de vista. Muito bem: esse é o jogo democrático e é ótimo que as mulheres tenham se engajado fortemente nele. Infelizmente, criminosos virtuais hackearam o grupo e conseguiram tirá-lo do ar. Assim, acabaram com um espaço legítimo de discussão política e tentaram silenciar vozes femininas. Perde a democracia, mais uma vez.

       As participantes do grupo tomaram as providências legais cabíveis e aguardam uma solução da rede social. Em um país como o Brasil, forjado da tradição patriarcal, não é de todo surpreendente que tentem calar as vozes femininas. A violência contra a mulher faz parte da construção do país: não faltam registros de índias e africanas estupradas em nome da ocupação territorial e da colonização. Segundo Mary del Priore, a escravidão reforçou a submissão da mulher que livre ou cativa, era tratada como uma escrava. “A Igreja católica explorou as relações de dominação que presidiam o encontro de homem e mulher dentro de casa, incentivando a última a ser exemplarmente submissa. A relação de poder já implícita na escravidão se reproduzia nas relações mais íntimas entre marido e mulher”.

       Se as mulheres negras, índias e “mestiças” eram tratadas como objeto sexual e braços para o trabalho, as brancas, de “boa procedência”, eram moeda de troca para que as famílias consolidassem seu poder e aumentassem suas riquezas com alianças seladas por casamentos arranjados. Meninas de 12, 13 anos eram obrigadas a se tornar esposas de homens adultos e até idosos. As mulheres estavam condenadas a serem escravas domésticas e sua função era gerar filhos para garantir a descendência da família e o nome do marido. Calar e obedecer: era isso que as mulheres deveriam fazer. Mas, felizmente, elas não aceitaram passivamente este destino.

        As escravas usavam de todos os meios para tentar mudar a sua condição: negar-se a trabalhar, responder para seus senhores e provocar pequenos prejuízos tornaram-se estratagemas de mulheres negras escravizadas para desvalorizar o próprio preço. Elas trabalhavam como “escravas de ganho” para juntar o dinheiro da carta de alforria – apesar de ter que entregar a maior parte de seus rendimentos aos donos. Algumas eram obrigadas a se prostituir pelos patrões ou exerciam essa atividade para sobreviver.

         As mulheres eram solidárias umas com as outras naqueles duros tempos coloniais, o que fazia a vida mais suportável. Elas dominavam também as ervas medicinais e ajudavam na cura de doenças com sua sabedoria popular – o que era mal visto pela Igreja. Umas ajudavam as outras, e compartilhavam segredos, no campo amoroso e no combate às enfermidades e males femininos. As doenças da “madre” (útero) eram um mistério para os homens, e havia mulheres que preparavam beberagens e outros tratamentos para os problemas como esterilidade, corrimentos, dores, sangramentos, abortos espontâneos e gestações indesejadas.

       O universo das práticas mágicas era dominado pelas mulheres – apesar de haver feiticeiros e magos do sexo masculino. Na época, acreditava-se que a mulher era mais propensa aos tratos com demônio. As europeias trouxeram para a Colônia a magia erótica portuguesa, que se misturaria com práticas indígenas e africanas. Filtros do amor, poções, beberagens, “cartas de tocar”, todos expedientes eram usados para conquistar a pessoa amada ou para vinganças contra algum mal feito.  No campo amoroso, quantas sinhazinhas não recorreram à ajuda de suas mucamas para mandar secretamente bilhetes e recados aos seus amantes? E quantas escravas não foram acobertadas por suas sinhás?

        Segundo Vainfas, as mulheres acabaram por construir uma sociabilidade e uma linguagem próprias, criando laços de solidariedade e amizade, em um mundo dominado pelos homens. “Brancas e mamelucas, moças de família ou filhas de artesãos, senhoras ou escravas, todas pareciam unir-se em diversas situações, partilhando experiências, trocando conselhos, descobrindo segredos, e quase sempre arquitetando maneiras para melhor se relacionarem com os homens”, conta. Vainfas destaca que a solidariedade tinha muitos limites, pois, o que unia as mulheres era o desejo (e a necessidade) de serem amadas e protegidas pelos homens. Hoje ainda observamos que muitas mulheres ainda agem norteadas por essa busca pela aceitação masculina.

         Oprimidas, violadas, cerceadas em sua liberdade, agredidas, abandonadas, traídas, presas a relacionamentos abusivos, mas sempre buscando formas de lutar e mudar sua situação. No século XIX, começam a surgir as primeiras escritoras que colaboravam com as publicações da época sob pseudônimo, para evitar represálias. O direito a voto só viria em 1932, mas até hoje buscamos uma maior representatividade na esfera política. Não iremos nos calar, como nunca o fizemos. Não será a covarde derrubada de um grupo que irá nos intimidar. Nosso voto fará a diferença.

        De acordo com Michelle Perrot, o “homem habituou-se demais a impor o silêncio às mulheres, a rebaixar suas conversas ao nível da tagarelice, para que elas não ousem falar em sua presença”. Por isso, devemos resistir e buscar ampliar nosso espaço de atuação política. Mary del Priore destaca que a raiz da palavra resistere se encontra um sentido: “ficar de pé”. E ficar de pé implica manter vivas, intactas dentro de si, as forças da lucidez. “Essa é uma exigência que se impõe tanto em tempos de guerra quanto em tempos de paz. Sobretudo nesses últimos, quando costumamos achar que está tudo bem, que está tudo numa boa; quando recebemos informações de todos os lados, sem tentar, nem ao menos, analisá-las, e terminamos por engolir qualquer coisa”.

Chega de silêncio.

  • Texto de Márcia Pinna Raspanti.

“Mulheres protestando”, de Di Cavalcanti.

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Quem tem medo do voto feminino?

“Susana e os anciãos”, de Artemisia Gentileschi (1610)

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